Procura-se a valorização dos DJs brasileiros, se é que ela um dia existiu

valorização dos djs

Valorização dos DJs – Antes de iniciar este texto com um tom opinativo, quero deixar claro que estou aberto a qualquer tipo de discussão amigável e soluções sobre o tema.

A figura do DJ na história da música é nova, e não estou falando de tempo de “descobrimento” da profissão, mas sim de reconhecimento. A migração da pessoa que operava a máquina de som nos bastidores sem qualquer contato com o público, para a cabine cheia de luzes que vemos hoje em dia foi um processo bem lento que ainda é pouco valorizado, se tratando de moral.

O recente caso do Tiago Leifert, durante a apresentação do programa de Games e entretenimento Zero1, reforça ainda mais essa sensação de falta de reconhecimento por parte de todos, a desvalorização ficou ainda mais evidente por ele próprio ter informado que já trabalhou como DJ, assista o vídeo:

Quando eu assisti esse vídeo pela primeira vez, não me espantou a forma com que ele falou sobre o que o DJ faz na cabine, o problema mesmo foi generalizar, e só. Poucos dias após a repercussão nas redes sociais, ele emitiu um vídeo se retratando e retirando a parte da generalização do vídeo, citando apenas que alguns DJs são Fakes. No vídeo ele aproveita para mostrar o seu primeiro mixer, um DJM 300S e sua case de CDs da época, confira:

Este texto já estava pré-pronto com um assunto parecido, para eu iniciar 2018 com matérias autorais/opinião no site, e esse vídeo do Tiago trouxe ainda mais reflexões, até por que eu sou da turma de “Ex-DJs”, se é que existe.

Voltando ao assunto principal sobre a valorização do DJ, é possível que exista mais perguntas do que respostas quando se fala em valores morais e financeiros de artistas independentes.

Iniciando por exemplo pelo meu caso, sou DJ formado, sim eu fiz um curso completo de DJ em meados de 2010/11 e tenho um diploma que me “habilita” desempenhar a função. Você acha que por conta disso eu fui valorizado e ganhei milhões? Diploma em qualquer profissão não é sinônimo de sucesso, principalmente quando se trata exclusivamente de profissões que trabalham com criatividade. Ser DJ é relativamente fácil, difícil é ser alguém diferenciado naquilo que se propõe a fazer, e um dos motivos que acaba desvalorizando os profissionais, é a prostituição presente em várias profissões, onde a mão de obra não tem valor definido, uns cobram “50” outros “500”, não existe parâmetros claros no mercado, isso dificulta ainda mais quem sobrevive dessa arte e no final do mês tem conta para pagar, já a geração Likes vai ganhando cada vez mais fama e visibilidade.

Um detalhe que faz a profissão ser mega desvalorizada no Brasil, é a famosa síndrome de vira-lata, o público está acostumado a fazer qualquer coisa pelos gringos e não está consumindo festas de amigos, basta o DJ comentar que vai tocar em lugar X que o bom dia daquele “amigão” se transforma em “Me arruma um VIP“? Esse é um dos espermatozoides da desvalorização.

Existe também um outro lado, que já foi falado na matéria “Alerta de textão: Você apoia a cena ou se apoia nela?“, no texto é comentado sobre essa grande engrenagem que muitos não enxergam:

Para manter a saúde dessa engrenagem, é necessário que ninguém tente a sorte de ativar o botão do EGO, afinal todos precisamos de todos, o produtor cria a música, que saiu pelo Selo “XY”, e foi gravado no Estúdio da Gravadora “Z”, que o DJ toca na casa noturna onde um produtor de eventos fez a sua festa contratando VJs e fotógrafos, e o público que lotou a casa com ajuda de promoters e a festa teve uma cobertura do site “Ciclano” e assim começa tudo novamente. Não existe uma ordem exata para fazer acontecer, o que importa é que tenha a famosa ética e respeito entre as diferentes frentes da engrenagem“, leia a matéria completa clicando no link acima.

Técnica x Fakes!

Existe uma classe de DJs que eu aprecio o trabalho e foi um dos motivos para eu fazer o curso na época que eu não conhecia nenhum DJ, que são os Turntablistas (Acesse este link para ver um pouco mais sobre), talvez seja a “classe” que mais sofre preconceito, pois como eles participam de campeonatos onde a técnica é o que determina o vencedor, o público classifica esses profissionais de forma errada, como se eles só fizessem isso. E temos exemplos claros de que isso não é verdade, como os campeões do DMC, DJ Craze ou o mais conhecido A-Trak (Fundador da Fool’s Gold Records).

No Brasil temos os exemplos do DJ Nedu Lopes, 3x campeão brasileiro, DJ Cinara bi campeã, ambos do Red Bull3Style, e também o DJ Erick Jay único brasileiro campeão mundial do DMC e do IDA World. Todos os nomes citados, participaram de campeonatos e vivem da profissão DJ pelas noites do Brasil e do mundo, provando que ter técnica não é um pecado no club e a galera consegue dançar com seus sets.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Devemos separar o DJ do Produtor?

O mercado se transforma conforme a quantidade e demanda, assim como tudo na vida. Com o passar do tempo, surgiram milhares de DJs pelo Brasil e alguns para se diferenciar, se “jogaram” para o lado da produção, com essa fórmula do sucesso embaixo do braço de que “O DJ tem que produzir e tocar suas músicas para ter sucesso”, com isso também teve a fórmula do sucesso no lado oposto, “o produtor pode ganhar mais visibilidade apresentando suas músicas ao vivo”. Quem se dedica = se destaca, mas sabemos que em boa parte dos casos, não é bem assim que acontece. Não sei o que é pior, o DJ pagar de produtor e criar músicas horríveis ou o produtor que vai se apresentar ao vivo e “queima” a sigla DJ, fingindo que está tocando ou com um set pré pronto.

Reconhecer, Regulamentar, adianta?

O assunto regulamentação do DJ como um profissional reconhecido e registrado no mercado de trabalho é um assunto antigo que tramita na Câmara dos Deputados, o projeto de lei 2081/15, do deputado Vicentinho do PT de São Paulo, estabelece que o DJ profissional precisa ser aprovado em curso técnico oferecido por escolas devidamente credenciadas e reconhecidas pelo Ministério da Educação (MEC), com carga horária mínima de 800 horas-aula. O requisito é dispensado aos que já exerçam a profissão por pelo menos cinco anos contados da data de publicação da lei. Em 2016 o projeto foi aprovado pela Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados e agora segue para 5 sessões na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC), detalhes do projeto de lei aqui.

A regulamentação pode mudar muitas coisas, mas a valorização não será criada a partir de um reconhecimento no papel e os fakes continuarão “trabalhando” normalmente.

O público tem responsabilidade nessa desvalorização?

A síndrome de vira-lata está no DNA do brasileiro, mas não acredito que o público tenha influência nos fakes do mercado, até porque não podemos obrigar as pessoas a entender técnicas de discotecagem e muitas vezes a pessoa vai pelo tipo de som e não pelo artista, o que é entregue a elas num show/apresentação, em cima de um palco alto com luzes é um conjunto de entretenimento e uma das peças é o DJ. Por outro lado, infelizmente o material entregue para este público traz um nível de investimento em marketing elevado e a técnica e experiência que o artista proporciona não é levado em consideração, o rostinho bonito basta e vende fácil e assim o mercado não cria talentos e sim modelos apertadores de botões.

Analisando o contexto geral, existem culpados nessa história?

Encontrar culpados talvez seja o menor dos problemas, o que é necessário em um momento onde a demanda é menor do que a quantidade, seria ocorrer o inverso, a famosa lei do “Poucos e Bons“. Os DJs que estão iniciando suas carreiras, chegam deslumbrados pela fama e pelo reconhecimento e esquecem de trabalhar para tal.

Só assim, vamos ter menos Tiago Leiferts que mesmo sendo um “Ex-DJ”, generalizou e desvalorizou uma cena que nunca foi valorizada.

Tem uma opinião diferente? Discorda? Deixe a sua opinião e compartilhe com o seu amigo DJ, vamos debater o assunto e buscar melhoria de uma forma construtiva.

Além do nosso site, você pode encontrar o SoLow Bass no: Facebook > Instagram > YouTube > Twitter e SoundCloud

Comentários

Comentários