Demorou cinco semanas, mas a terceira temporada do hit da HBO estrelado por Sydney Sweeney finalmente chegou lá. Entre os dias 5 e 10 de maio, a série desbancou a concorrência e assumiu o primeiro lugar absoluto no streaming, segundo dados levantados pela Samba TV, uma empresa especializada em métricas e analytics de televisão. Desde a estreia em 12 de abril, “Euphoria” vinha batendo na trave, sempre ofuscada por outros lançamentos. Mas o jogo virou depois do Episódio 5, disparado o capítulo mais polêmico da série até hoje. O curioso é que eu faço parte dessa enorme estatística de audiência, mas confesso que ligo a TV toda semana com um gosto bem amargo na boca.

Comecei a acompanhar a série uns quatro anos atrás, quando a segunda temporada estava no ar. Mesmo tendo mais ou menos a mesma idade da maioria dos personagens, a realidade deles não batia muito com a minha. Ainda assim, a trama me fisgava. Na sua essência, as duas primeiras temporadas construíram uma história sobre a adolescência e o peso de crescer. A série tinha uma sensibilidade própria, onde as drogas e seus efeitos ditavam a narrativa, mas dividiam espaço com amizades extremamente sinceras. Essa terceira temporada, no entanto, jogou todo esse charme pela janela e colocou uma dose pesada de rancor no lugar.

Dá para sentir que o caos dos bastidores contaminou o que a gente vê na tela. A produção da série tem um histórico de ser uma bagunça turbulenta. Sam Levinson, o criador e showrunner, coleciona controvérsias, principalmente pela forma como lida com o elenco. Existem vários relatos de atores que se sentiram desconfortáveis com o excesso de nudez, mas que foram forçados a gravar mesmo assim. As jornadas nos sets são exaustivas e punitivas, e rola a sensação de que a relação pessoal do ator com Levinson dita se o personagem vai se dar bem ou mal no roteiro. Esses problemas já existiam antes, mas a terceira temporada parece estar encharcada dessa energia tóxica.

O que me atraiu lá no começo foi justamente a forma cheia de nuances como a série retratava o impacto do vício na vida de um jovem. Agora, com um salto temporal de cinco anos em relação ao fim da segunda temporada, somos jogados numa visão grotesca de uma América predatória e impiedosa, onde todo mundo parece estar brigando por migalhas. Pegaram as tramas do passado e injetaram esteroides nelas. A Rue da Zendaya deixou de ser uma adolescente lidando com a dependência química de forma visceral para virar uma “mula”, contrabandeando fentanil pela fronteira do México.

O que antes soava como um retrato genuíno e doloroso sobre o vício hoje parece uma paródia barata de si mesma. Para mim, a alma da série sempre morou nas interações entre a Rue e a família, na dor de ver como a dependência destruía lentamente quem estava em volta. Tudo isso evaporou. Em vez de focar no indivíduo e nos efeitos pessoais da adicção, a produção deu um cavalo de pau e virou um thriller espalhafatoso sobre cartéis. É uma história que até tem seu valor, mas que definitivamente arranca fora o coração de “Euphoria”.

O tratamento dado às mulheres nessa temporada é igualmente frustrante. Quase todas as personagens femininas que restaram foram empurradas para narrativas de trabalho sexual. Não que a série tenha sido pudica em algum momento, mas o comentário sobre sexualidade costumava ter um lastro muito mais sincero e fundamentado. O arco da Cassie, em particular, chega a ser bizarro. Ela nunca foi minha favorita, mas tinha muita complexidade. A gente entendia as inseguranças dela e como a hipersexualização era um mecanismo de defesa falho. Agora, ela virou uma influenciadora de OnlyFans movida puramente pelo dinheiro. Transformaram uma garota empática, que acreditava que a própria aparência era a única coisa interessante que tinha a oferecer, em um estereótipo materialista e fútil. É irônico ver como uma obra com um elenco majoritariamente feminino passou a girar de forma tão óbvia em torno do olhar masculino.

Como a temporada ainda está sendo exibida, existe a remota chance de tirarem alguma conclusão genial e empoderadora da cartola na reta final, mas, pelo que vimos até agora, eu duvido muito. O fato é que eu e mais de oito milhões de espectadores continuamos sintonizando para assistir, o que explica a coroação no topo do streaming apontada pela Samba TV. Mas os números frios mascaram a queda livre na qualidade percebida pelo público: a nota média no Rotten Tomatoes despencou de 78 para meros 40. “Euphoria” já foi uma obra artística contundente com coisas reais a dizer sobre o vício. Essa terceira temporada não adiciona quase nada à conversa. Os personagens envelheceram cinco anos, mas, de forma impressionante, o roteiro conseguiu regredir.