O mestre do terror propôs uma pergunta no mínimo incômoda: e se, em vez de deixar a alma de um amigo descansar, você pudesse continuar batendo papo com ele depois de morto? É exatamente essa pira que a adaptação cinematográfica de O Telefone do Sr. Harrigan explora. O filme, baseado no conto homônimo de Stephen King e que acaba de ganhar um trailer, joga luz sobre os limites bizarros do luto e da tecnologia.
A trama acompanha Craig (vivido por Jaeden Martell), um garoto que acaba criando um laço de amizade improvável com o Sr. Harrigan, um bilionário idoso e recluso interpretado pelo lendário Donald Sutherland. Para facilitar a comunicação entre eles, o moleque dá um iPhone de presente para o coroa. Acontece que o velho morre e, num ímpeto de saudosismo, Craig esconde o aparelho junto ao corpo antes do enterro. O problema começa quando ele percebe que consegue mandar mensagens para o amigo direto do além-túmulo. Como o próprio King já fez questão de nos alertar no passado, “às vezes, estar morto é melhor”, e a situação logo toma um rumo macabro. Pela prévia, dá para ver que a vida começa a imitar as vontades de Craig, e os valentões que atormentavam o garoto na escola passam a morrer um por um. Ele então decide fuçar o passado do Sr. Harrigan e descobre que a figura do amigo era bem mais sinistra em vida do que ele imaginava.
Dirigido e roteirizado por John Lee Hancock — que está se jogando de cabeça no terror pela primeira vez — e com uma equipe de peso por trás (Ryan Murphy, Jason Blum e Carla Hacken na produção), o longa traz um elenco de responsa que inclui Joe Tippett e Kirby Howell-Baptiste.
Se de um lado temos narrativas explorando a comunicação literal com quem já partiu, do outro, vemos astros da indústria pegando gosto por bater as botas na tela de forma brutal. Poucos atores hoje têm um currículo tão versátil quanto Hugh Jackman. O cara canta e dança na Broadway, segura as pontas apresentando o Oscar, estrela musicais efusivos como “O Rei do Show” e carregou o fardo do herói de ação da Marvel por décadas — do início promissor do Wolverine em “X-Men”, passando pelo desfecho devastador de “Logan”, até ser ressuscitado recentemente. Mas, de repente, Jackman começou a morrer em tudo que é filme.
O ator estrela A Morte de Robin Hood, um filme de ação indie revisionista que também o mata, logo depois do sucesso inesperado “The Sheep Detectives”, que já despacha o australiano nos primeiros 15 minutos de exibição. Durante uma conversa no Whitby Hotel, em Nova York, ele mesmo ironizou a situação: “Fiz três filmes em seis meses em que eu morro. Não sei bem o que o universo tá querendo me dizer com isso. Eu não quero morrer, só topo fazer isso de mentirinha, se estiver tudo bem”.
A oportunidade de fazer esse Robin Hood sombrio e niilista caiu no colo dele quando o produtor Aaron Ryder enviou o roteiro escrito por Michael Sarnoski. Jackman curtiu o texto e foi dar uma olhada em “Pig”, o elogiado longa de estreia do diretor com Nicolas Cage. Bastaram 10 minutos de projeção para que a confiança da voz do cineasta, de apenas 30 anos, convencesse o veterano. Impressionado, Jackman embarcou com tudo no projeto para garantir que ele saísse do papel. E a produção foi barra pesada: ele aguentou horas a fio de maquiagem prostética para envelhecer uma década e passou um frio do cão filmando na lama da Irlanda do Norte. Surpreendentemente, ele adorou cada minuto.
Existe uma pegada bastante crua e meditativa nessa desconstrução do mito de Robin Hood, especialmente na relação do herói com a personagem de Jodie Comer, um encontro de mentes que soa ao mesmo tempo redentor e como um aviso. Sarnoski questiona a própria espinha dorsal do herói cultural. Os registros históricos lá do século XII pintavam o arqueiro apenas como um fora da lei asqueroso, um conto de advertência. Foi só com as mudanças políticas na Inglaterra e a revolta dos servos contra a aristocracia que a figura do justiceiro que rouba dos ricos começou a ganhar traços heroicos. Até então, ele era só um cara ruim com algumas regras morais peculiares, como não machucar mulheres ou perdoar mentirosos, o que serviu de base para romantizarem a lenda.
A mensagem por trás dessa carnificina é clara: tome cuidado com as histórias que você compra. Somos bombardeados por narrativas desde que nascemos, seja pela mídia, pela religião ou pelos nossos pais. E essas lendas frequentemente servem como engrenagens para violências históricas. O longa joga com a ideia perturbadora de que, talvez, a aura de Robin Hood não passe de uma mentira deslavada, uma fabricação de um assassino sádico para manipular as massas e criar seguidores. E se ele roubou alguns nobres ricos, mas nunca deu um centavo aos pobres? O roteiro te deixa no escuro até o fim, sem entregar respostas mastigadas.
Toda essa carga psicológica exigiu muito no set, que teve locações espetaculares na ilha, mas cobrou seu preço físico. A primeira cena de luta na lama levou Jackman à exaustão. Foi uma gravação noturna onde o cansaço beirou o limite do insuportável. Numa coreografia letal, com dedos nos olhos e lama pra todo lado, criou-se uma intimidade estranha com a violência. Num dos momentos, ele estava tão esgotado que precisou literalmente deitar e descansar em cima do colega de cena australiano que estava prestes a “matar”. Jackman confessa que ainda tem sujeira em lugares que prefere nem comentar, mas reconhece a poética bizarra daquele instante de pausa no meio da barbárie.
No fim das contas, foi a confiança absoluta na visão de Sarnoski que segurou a onda. Jackman coloca o diretor na mesma prateleira de mentes como Aronofsky, Nolan e Villeneuve. Gente que sabe o que quer dizer. O que o jovem cineasta conseguiu arrancar de um astro desse calibre foi uma fluidez rara, quebrando os vícios de uma atuação muito controlada e permitindo que o instinto tomasse a frente — provando que, seja assombrando do túmulo como no universo de Stephen King ou sangrando na lama de Belfast, Hollywood ainda tem muito a explorar nas sombras.
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